Engana-se que acredita que os rigorosos regulamentos, automação de processos avançada, sistemas de gerenciamento de segurança e os esforços bem-intencionados de investigações, acidentes de trabalho ainda acontecem em muitas instalações e, em alguns casos, são repetidos de forma semelhante, são suficientes e garantidores de proteção. O indivíduo é um ser único, suscetível aos mais variados fatores internos (endógenos) e externos (exógenos) que afetam o seu equilíbrio, atenção, disposição, e respostas a estes variados estímulos. Ele quase nunca é o único responsável e o incidente raramente é isolado. Por quê? Porque humanos não são perfeitos. As instalações não são apenas operadas por seres humanos, mas também são projetadas, construídas e mantidas por eles. Isto proporciona uma ampla oportunidade para que as pessoas contribuam para incidentes. E é por isso que soluções técnicas, modelos de negócios, estratégia corporativa, regras e regulamentos podem ajudar uma Organização a melhorar sua segurança e desempenho operacional, mas raramente são suficientes. Compreender plenamente os muitos papéis que os humanos desempenham nas instalações e os fatores que influenciam suas tomadas de decisão é, portanto, vital para evitar incidentes e alcançar a excelência operacional, se definirmos excelência operacional como minimização do risco, eliminação de defeitos e maximização da criação de valor.

A resultante fica evidente a partir de uma revisão dos históricos de incidentes é significativo os fatores humanos em causar incidentes. Compreender e melhorar os “fatores humanos” nas causas de incidentes requer foco nos comportamentos, características, necessidades, capacidades e limitações inerentes das pessoas, bem como o desenvolvimento de culturas de trabalho sustentáveis e seguras. Obter uma compreensão abrangente das causas-raiz dos incidentes e abordá-los holisticamente é fundamental para preveni-los efetivamente.

Para conseguirmos uma mudança radical na segurança e saúde ocupacional, temos de ir além da abordagem tradicional de gestão da segurança. Muitos comportamentos de risco ocorrem intuitivamente e são o resultado de sentimentos baseados em experiências associadas com resultados anteriores. A chave para o avanço da eficácia das práticas de gestão de SSO – Segurança e Saúde Ocupacional envolve uma melhor compreensão dos fatores motivacionais e seu impacto subsequente na tomada de decisões.

 As raízes da gestão de segurança comportamental

As organizações devem estabelecer e transmitir efetivamente expectativas sobre o comportamento no local de trabalho. Monitorar ações e comportamentos e assim garantir a conformidade com as práticas de trabalho padronizadas. Por fim, o feedback deve ser feito para reforçar ou modificar comportamentos.

Fatores de ordem econômico-financeiro aliadas a NR’s desatualizadas, complexas e a reconhecida ineficácia governamental para fiscalizar reduziu investimentos em SSO no Brasil, e isso reduziu o processo de feedback.

O efeito de sentimentos e emoções no comportamento

Recentes avanços em neurociência joga uma nova luz sobre o comportamento humano. Sentimentos e emoções como uma fonte primária de motivação parecem estar ganhando importância; uma revelação que pode oferecer um novo ponto de vista sobre o motivo pelo qual as pessoas nem sempre seguem as regras e podem reagir irracionalmente.

Aplicado no local de trabalho, este conceito sugere que a forma como os funcionários “sentem” diante de uma situação pode ser mais representativo para um comportamento subsequente do que o que eles “pensam”.

A noção de uma mente dividida em duas, uma parte lógica e racional, a outra intuitiva e automática, não é nova. No entanto, sua aplicação sistemática nas práticas de segurança é novidade e pode possuir a resposta para alguns de nossos maiores desafios. A base da maioria das práticas de segurança definidas é orientada pela lógica. A base da maior parte dos comportamentos humanos, por outro lado, não é lógica não. A maioria dos comportamentos é intuitiva, ocorrendo automaticamente, e é resultado de nossa resposta afetiva para uma situação. A motivação (motivo para a ação), para qualquer ser vivo, está alicerçada em dois fatores básicos: Primeiro, obter-se um ganho. Segundo evitar-se uma perda. Fora disto, não há verdades que se sustentam.

Enquanto humanos, vivemos em um ambiente que está em constante mudança. A cada segundo, bilhões e bilhões de novas informações. Permanente processamos informações e monitoramos situações de potenciais riscos ou recompensas, experimentado intuitivamente por meio de sentimentos ou mesmo emoções. Por nossa natureza, somos extremamente eficientes em gerenciar esta enorme quantidade de informação. Então, como determinamos o que resta sob a égide de nossa consciência e que é sinalizado para que haja mais atenção e processamento? É um processo de filtração, largamente influenciado por experiências passadas.

 

Comportamento de risco baseado em experiências

O papel da experiência é fundamental para entendermos por que muitos comportamentos de risco ocorrem e o que pode ser feito em relação a eles. Considere por um momento o comportamento típico de um motorista em uma estrada. Muitos irão definir controles de velocidade ligeiramente acima dos limites de velocidade da via. O balanço entre viajar em alta velocidade para obter um benefício antecipado e o possível custo de dirigir rápido demais e levar uma multa é altamente influenciado pelas experiências anteriores. Esse processo ocorre intuitiva e automaticamente e não envolve análises de riscos baseadas em informações. Cada vez que:

  • benefício se concretiza sem uma consequência negativa,
  • comportamento torna-se mais habitual e automático.

Comportamentos de risco baseados em experiências orientados por ganhos antecipados que superam qualquer custo percebido não estão limitados às estradas ou aos motoristas. Eles ocorrem com a mesma frequência no local de trabalho.

Há um conflito entre o trabalho prescrito e o trabalho real. Nossa resposta baseada na experiência passada parece ter maior influência nas decisões e ações subsequentes em que somos demandados a tomar rapidamente decisões. Isso explica, parcialmente, porque palavras e informações podem ter uma influência pequena no comportamento de alguém. É mais que um desafio rotular um comportamento como “inseguro”, quando este comportamento foi adotado centenas ou até milhares de vezes anteriormente sem nenhuma experiência negativa. Se o comportamento foi associado com um benefício previsto que foi concretizado, as pessoas irão confiar nesta experiência; um dilema no qual a lógica e a razão sozinhas terão sucesso limitado.

Influenciando o comportamento de risco

Enquanto experiências podem ser o fator condutor por trás da maioria dos comportamentos de risco, também é a chave para superá-los. Apesar da lógica e razão serem influenciadas por palavras, informações e comparações analíticas, nosso sistema intuitivo não funciona assim. Para influenciar comportamentos efetivamente, você deve empregar imagens, emoções, histórias pessoais e técnicas experimentais que conectam com seus funcionários, e subsequentemente os motivem – MOTIVAÇÃO. Dar motivos para a mudança comportamental (perdas & ganhos).

Uma indústria que tem abraçado técnicas experimentais para melhorar o desempenho da segurança no trabalho é a aviação comercial. Apesar de numerosos esforços para melhorar a performance dos pilotos, a taxa de acidentes causados por erro do piloto permaneceu em 65% por mais de 50 anos. Isso mudou em 1990 quando a indústria introduziu simuladores de voo, uma ferramenta projetada para fornecer aprendizagem e experiência em um ambiente seguro e controlado. Desde então, acidentes causados por erro do piloto caíram em mais de 54%.

Uma mudança comportamental evolutiva só acontecerá quando houver por parte do trabalhador o convencimento de obtenção de um ganho ou evitar uma perda. Quando o trabalhador é adequadamente estimulado, internaliza, processa racionalmente resta consolidado a expectativa do benefício. Adota esta automação visceralmente, brotando do âmago o entendimento de satisfação para o atendimento de suas necessidades e expectativas.

“O verdadeiro teste de caráter de um homem é o que ele faz quando ninguém está vendo”, disse uma vez o treinador de futebol americano John Wooden. Esta é uma verdade que as empresas constatam todos os dias. Elas não podem monitorar os funcionários em suas instalações o tempo todo, mesmo que elas tentem. Mesmo se pudessem, supervisão não é um condutor da performance – seja ela em segurança ou nas operações – tão bom quanto uma mudança dos comportamentos instintivos e habituais.

A complexidade de fatores determinantes para uma boa avaliação ergonômica de um posto de trabalho, vai muito além de projeto, cognição, concepção, mobiliário – Cada indivíduo é um ser único, com suas variáveis, expectativas e necessidades a serem holisticamente examinadas.

 

Pedro Valdir Pereira

Safety Technician-Ergonomics, Occupational hygienist, Health and Safety /Reg. MTb. 45/00069-2 Formação Profissional Coaching Gerencial;
Técnico Internacional em Emergências Químicas – Especialista em Atendimento de Emergências – NFPA 472 U.S.A;
HazMat Technician Standard for Professional Competence of Responders to Hazardous Materials Incidents – Technician Level – transportation technology center, University of Texas at Austin – inc. USA;
Instrutor Credenciado CMBM / CBM RS REG. N° 000.185 / 2011, N° 0.379 / 2013, 551/2015, 733/2017, 078/2019;
Juiz do Tribunal de Mediação e Arbitragem do RS / TMA RS – Matrícula TMA/RS 1328;
Consultor Técnico – Defesa Civil RS;
Membro da Cruz Vermelha Internacional – Vale do Taquari;
Delegado Eleito para representar o RS na Conferência Nacional de Defesa Civil – Brasília em NOV 2014;
Instrutor, Professor, Comunicador, Palestrante, Coordenador de SST, Consultor Técnico em SST.

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