Reconhecimento de agentes químicos – Exemplo prático (Parte 1)

Olá meus caros, espero que todos estejam bem.

Neste texto quero discorrer sobre uma atividade que executei em um cliente da minha consultoria (como vocês já sabem tudo o que eu escrevo neste blog tem como base experiências práticas que possam trazer uma bagagem prática e teórica de higiene ocupacional) referente ao reconhecimento de agentes químicos, mais precisamente a análise de vapores e gases, mais especialmente aqueles de origem orgânica.

Nesta empresa os trabalhadores realizam o teste de ferramentas manuais, como roçadeiras, motosserras, soprados, entre outros equipamentos onde uma quantidade considerável destes têm como fonte de energia um dos combustíveis derivados do petróleo mais comum usados em nossa sociedade, trata-se da gasolina comum, ou seja, um processo de combustão que ocorre no motor do equipamento, vale ressaltar que dependendo do tipo de ferramenta existe a adição de um óleo lubrificante de 2 ou 4 tempos (geralmente o uso mais comum era do óleo lubrificante de 4 tempos, por conta das característica do controle da mistura ar + combustível e consequentemente na emissão de gases, conferindo maior eficiência no uso na mistura). Basicamente, o teste é realizado em uma sala própria para esta finalidade, todavia, a saída de ar usada como uma espécie de sistema de exaustão não estava projetada para succionar os gases gerados como subproduto da combustão em uma vazão que possa ter eficácia na diluição dos gases e dos subprodutos gerados pela queima da gasolina e do óleo lubrificante.

Pois bem, sabemos que neste caso há o uso e a manipulação da gasolina, que é adicionada manualmente pelo trabalhador (o combustível é armazenado pela empresa em um reservatório apropriado para este tipo de finalidade, ou seja, com características anti-explosivas), logo é evidente que temos exposição aos vapores deste combustível, haja vista que a gasolina é um agente químico altamente volátil (pressão de vapor: 592 mmHg a 37,8°C e ponto de ebulição de 35° C). Outro ponto importante é a definição do que é a gasolina sob a ótica da química analítica; a gasolina comum é uma mistura complexa de hidrocarbonetos aromáticos e alifáticos e na sua produção a gasolina é isenta de outras substâncias adicionais, conforme especificações da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (conhecida pela sigla ANP), temos então uma mistura inflamável complexa de centenas de compostos hidrocarbonetos. Estes compostos são obtidos através do refino de correntes do petróleo e suas moléculas podem variar de 5 a 12 átomos de carbono. Entretanto, as companhias distribuidoras realizam a adição de etanol anidro (de acordo com o teor vigente na legislação) para posteriormente disponibilizar o combustível nos postos de revenda. A gasolina sem etanol é denominada como “gasolina A” e a gasolina com a adição de etanol é a “gasolina C”, mais uma vez de acordo com a ANP (Atualmente, o teor de etanol anidro na gasolina C é de 27% em volume para gasolina C Comum e 25% para gasolina C premium conforme Portaria MAPA nº 75/2015).

Ora, sabemos que agora temos como característica a gasolina e o etanol (também conhecido como álcool etílico) presente no combustível, além disso temos ciência que na gasolina comercializada temos existe a  presença do agente químico benzeno, com uma porcentagem de 1% em volume, ou seja, podemos adicionar mais um agente químico ao nosso processo de reconhecimento. Vale ressaltar que os testes são constantes, com variações entre os dias de trabalho, mas que acontecem toda a semana de forma intermitente.

Para os agentes químicos supracitados temos valores de Limites de Exposição Ocupacional – LEO estabelecidos, considerando a legislação nacional vigente e as concentrações propostas pela American Conference of Governmental Industrial Hygienists – ACGIH (esse meu trabalho foi para elaboração do Programa de Prevenção de Riscos Ambientais – PPRA desta empresa), conforme a tabela abaixo:

Também acrescentei na etapa de reconhecimento de riscos o valor de TWA para o n-Hexano, um agente químico que pertence à família dos hidrocarbonetos alcanos e que está presente na mistura que compõe a gasolina.

Ressalto que a NR 9 permite o uso dos valores de LEO da ACGIH, conforme o estabelecido no item 9.3.5.1 alínea “c”.

Outro ponto a ser destacado: eu adicionei o Valor de Referência Tecnológico – VRT do Anexo 13A da NR 15 estabelecido em 1995, mas devo salientar que os valores previstos nessa parte da norma são válidos apenas para as empresas que produzem, transportam, armazenam, utilizam ou manipulam benzeno e suas misturas líquidas contendo 1% ou mais de volume. Já nas atividades de uso de combustíveis derivados do petróleo, que é o caso desta avaliação, conforme o item 3 do Anexo 13A, não se aplica o anexo em questão. Logo, devemos ter muito critério ao usar o VRT, pois há uma limitação prevista no próprio anexo 13A da NR 15, neste tipo de situação costumo utilizar o valor presente na ACGIH para avaliar a concentração TWA e STEL.

Pois bem meus caros, nesta primeira parte do texto eu tratei apenas da etapa de reconhecimento de riscos presente com base nas informações coletadas e na análise do agente químico principal e de seus componentes.

No meu próximo texto vou falar sobre os subprodutos gerados pela combustão da gasolina e do óleo de lubrificação, pois devemos estar atentos aos gases gerados para realizamos um processo de reconhecimento de agentes químicos gerados nesse processo.

 

Fico à disposição para dúvidas e sugestões.

Gustavo Rezende

Gustavo Rezende de Souza
Professor no curso Técnico de Segurança do Trabalho e Higiene Ocupacional;
Consultor técnico na empresa – GV Segurança e Saúde do Trabalho.

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