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Como a Indústria 4.0, propiciada por todos os avanços da chamada Manufatura Avançada e da Transformação Digital, impacta a segurança e saúde dos trabalhadores de diversas áreas e verticais de negócio?

Confira em mais um post da série assinada por Alexandre Pinto da Silva, Engenheiro Eletricista e de Segurança do Trabalho, Higienista Ocupacional certificado pela ABHO0095.

 

  1. A Indústria 4.0

Com o avanço das novas tecnologias, com a chamada indústria 4.0, onde o uso da inteligência artificial se torna acelerada, isso traz preocupação aos trabalhadores, pois estes se sentem ameaçados pela perda do emprego, e também por terem enorme dificuldade de adaptação à essa nova realidade, pois há um sentimento de sempre estar desatualizado.

Com a indústria 4.0, os trabalhadores se sentem pressionados, e os que ainda continuam nos postos de trabalho, para que não percam o emprego, podem se sujeitar a receber menores salários, e ainda trabalhar em jornadas de trabalho excessivas.

Na indústria 4.0, podemos relacionar impactos positivos, pois ambientes insalubres, que adoecem os trabalhadores, como ambientes ruidosos, com temperaturas extremas, e ambientes periculosos, que oferecem graves riscos de adoecimentos e acidentes aos trabalhadores, como máquinas sem proteção, risco de choque elétrico entre outros, podem ser minimizados ou evitados, pois haverá menos trabalhadores expostos a estes ambientes.

Exemplificando, somente no Brasil houve em 2017, 1387 mortes por acidentes de origem elétrica (ABRACOPEL, 2018), grande parte desses acidentes relacionados com o trabalho.

Outro dado alarmante do Brasil é relativo aos acidentes com os membros superiores, que somente no ano de 2017 totalizaram 22.668 casos, sendo que mais de 4.500 desses casos levaram a amputação ao nível do punho e da mão.

Como exemplo de interação Homem-Máquina, sendo uma medida ergonômica nos ambientes laborais, já é uma realidade em algumas empresas de ponta o uso do exoesqueleto, que é utilizado com o objetivo de reduzir a força muscular do trabalhador, melhorando sua condição ergonômica. Um trabalhador que utilize esse equipamento para o desenvolvimento de suas atividades pode, por exemplo, em uma flexão do corpo, ter a absorção de todo o peso do tronco pelo equipamento.

Existem ainda algumas dúvidas quanto ao uso do exoesqueleto, pois ainda não se sabe se ele pode prejudicar a saúde do trabalhador. Este acessório deve ser encarado não como uma ferramenta para o aumento da produtividade, mas sim para a melhoria das condições laborais do trabalhador.

Em termos de medidas de prevenção, o uso de Equipamentos de Proteção Individual – EPI tem uma grande limitação, pois este representa a última barreira entre o risco e o trabalhador, atuando apenas para minimizar a lesão em caso de acidente. Com o advento das novas formas de trabalho, através das mudanças no processo, com a automação, mecanização, onde o maquinário pode dispensar a presença do trabalhador frente ao risco, essas medidas se tornam extremamente eficazes, e tende a atuar diretamente na diminuição dos acidentes e doenças do trabalho, pois tendem a não mais depender da atenção do trabalhador, ou do uso correto do EPI.

Porém, a medida que o “físico” do trabalhador é menos exigido, aumenta as exigências cognitivas, onde formas diferentes de trabalho levam ao adoecimento mental destes trabalhadores. E quando é abordado o adoecimento mental, esse se torna de difícil quantificação, pois para estes não existem limites de exposição quantificados pré-estabelecido.

  1. Preocupação

Uma grande preocupação em relação aos efeitos nefastos à saúde dos trabalhadores não é só a crise que afeta as empresas, mas também devido a escassez de oportunidades para os trabalhadores na recolocação no mundo laboral. A grave ameaça de desemprego, principalmente frente a crise que os países atravessam, reflete diretamente, de forma negativa, na saúde dos trabalhadores. Frente a essas ameaças, os trabalhadores, mesmo sem condições de trabalhar, tentam de todas as formas se manterem em seus postos de trabalho, por temerem serem substituídos. Esse tipo de comportamento dá lugar a um fenômeno chamado “Presenteísmo”, que diferentemente do Absenteísmo, onde o trabalhador se afasta do trabalho, no caso do “Presenteísmo”, o trabalhador está presente em seu posto de trabalho, mas sem condições de produzir satisfatoriamente, além de outros problemas comportamentais, como o isolamento social e aumento da agressividade.

No que se refere aos efeitos da organização do trabalho sobre os trabalhadores, Chistophe Dejour, em sua obra “A Loucura do Trabalho”, faz uma análise sobre a psicopatologia do trabalho. Ele conclui que as maiores consequências das novas formas de gestão verificam-se sobre a saúde mental dos empregados, fazendo com que os mesmos permaneçam em verdadeiro estado de alienação e desenvolvam ideologias defensivas, de modo a disfarçar o sofrimento psíquico ao qual estão sujeitos, com vistas à manutenção do próprio emprego.

Porém não é só a crise que pode aumentar o desemprego. Segundo o relatório Eurofound – Future of manufafacturing – Technology scenario: Employment implications of radical automation, cita o McKinsey Global Institute (2017), que diz que para os cinco grandes países da Europa (França, Alemanha, Itália, Espanha e Reino Unido), 54 milhões de empregos equivalentes em tempo integral estão associados com atividades tecnicamente automatizáveis e o potencial impacto devido à automação é de 46% das atividades de trabalho.

Neste mesmo relatório, é reportado que mais 32% dos empregos possuem probabilidade de automação entre 50% e 70%. Nestes trabalhos, uma parte significativa das tarefas regulares pode ser automatizada, mas não todas, o que implica uma mudança substancial nos requisitos de habilidades para esses trabalhos.

Já o novo relatório da Ipsos e do Fórum Mundial “Global Citizens and Automation” trouxe uma pesquisa realizada em 26 países, sobre a preparação dos trabalhadores frente a automação (IPSOS, 2019). As conclusões basicamente são:

  • A relação dos trabalhadores com a automação é a princípio positiva;
  • Os trabalhadores encaram as mudanças como positivas;
  • Há o temor de perda do emprego com o avanço da automação.
  • Cerca de metade dos trabalhadores admitem que a automação mudou o seu trabalho pra melhor, em comparação a 10 anos atrás;
  • A automação melhorou a qualidade do trabalho;
  • A automação reduziu o número de lesões relacionadas com suas atividades.

Outro fator que ainda deixa muito a desejar é como regulamentar essas novas formas de trabalho, como por exemplo, os contratos de zero hora, onde não há um número mínimo de horas estipuladas.

Outra grande preocupação, é em caso de acidente de um trabalhador que desenvolve suas atividades em casa, no chamado Home Office. Neste caso,  como definir se foi um acidente de trabalho ou não?

Atualmente há uma nova tendência mundial no mundo corporativo, que é o compartilhamento de espaços de trabalho, como por exemplo um escritório compartilhado por várias pessoas, pertencentes a várias empresas, o chamado “Coworking”! Esse tipo de compartilhamento traz um clima de espontaneidade, troca de experiências para transformar ideias em negócios, além de trazer a economia para as empresas, devido ao compartilhamento do local, diminuindo os custos com aluguel, internet, mobiliário, entre outros.

Interessante que, mesmo trabalhadores que laboravam em casa, estão preferindo trabalhar neste tipo de compartilhamento, pois há a necessidade de separar a vida pessoal da vida profissional. Neste caso, fica a pergunta de quem é o responsável por garantir as condições mínimas de saúde e segurança do trabalho neste mais novo tipo de trabalho, pois o espaço não pertence apenas a uma, mas a várias empresas.

Outro exemplo clássico, contemporâneo, da falta de regulamentação das novas atividades é o uso de transporte usando os aplicativos, como UBER, Cabify, 99 Táxi, entre outros. É certo que essa nova forma de mobilidade urbana traz grandes vantagens para os usuários, para os donos dos aplicativos, e para o trabalhador, que, sem oportunidade de um trabalho formal, inicia suas atividades como “Motorista de Aplicativo”. O problema é que, como falta regulamentação, os trabalhadores extrapolam os horários de trabalho, chegando a trabalhar 16 horas por dia, além da empresa pagar o que ela acha devido, sem o estabelecimento de um mínimo digno.

O que está acontecendo no Brasil e no mundo é que, esses trabalhadores perceberam que trabalham muito e ganham pouco, ficando a quase totalidade do lucro com a empresa. Isto se tornou tão preocupante que, pela primeira vez, houve uma greve mundial no dia 08/05/2019, dos motoristas do UBER, onde os motoristas reivindicam receber mais pelas viagens feitas pelo aplicativo, e também mais segurança durante o trabalho, inclusive, os trabalhadores já estão se organizando para formação de sindicatos.

Também no Brasil há um projeto que irá obrigar esses motoristas a recolher imposto para a Previdência Social Brasileira, pois se um trabalhador se acidenta, ele não tem a cobertura do estado para custear seu afastamento do trabalho.

Fica claro mais uma vez que, as novas formas de trabalho necessitam também de regulamentação, pois no “final das contas” as reinvindicações dos trabalhadores são as mesmas desde a Revolução Industrial, ou seja, melhores salários e melhores condições de saúde, segurança e qualidade de vida no trabalho.

Diante de todos esses fatores, e de outros como aumento da carga horária, acumulo de função, trabalhos que exige grande cognição, além da exigência de novas habilidades para lidar com as novas formas de trabalho, o estresse derivado do trabalho causa grande preocupação, pois, devido a grande pressão sofrida, os trabalhadores acabam levando os problemas para a vida pessoal, tendo um impacto negativo nas famílias, e consequentemente na sociedade como um todo.

Alexandre Pinto da Silva

Engenheiro Eletricista e de Segurança do Trabalho, Higienista Ocupacional certificado pela ABHO0095, Pós-graduado em Gestão Previdenciária, Higiene Ocupacional, Sistemas Elétricos de Potência e Radioproteção. Mestre pela UFMG e Master em Prevención Y Proteccion de Riesgos Profesionales – Especialidade de Higiene Industrial pela Organización Iberoamericana de Seguridad Social – Universidad de Alcalá – Madrid-España. Trabalha a 29 anos na Cemig. É professor de Pós-Graduação do curso de Engenharia de Segurança do Trabalho e Higiene Ocupacional. Possui 04 livros publicados sobre saúde e segurança do trabalho, além de mais de 30 artigos técnicos na área de saúde, segurança e qualidade de vida no trabalho!


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