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Dando continuidade à série de posts sobre o impacto das novas formas de trabalho sobre a Segurança e Saúde dos Trabalhadores, assinados por Alexandre Pinto da Silva, Engenheiro Eletricista e de Segurança do Trabalho, Higienista Ocupacional certificado pela ABHO0095, trazemos hoje uma análise do profissional sobre questões como adoecimento, Síndrome de Burnout e a relação entre nanotecnologia e saúde do trabalhador.

Confira!

3. As Mudanças no Mundo do Trabalho e o Adoecimento dos Trabalhadores
Atualmente têm surgido muitos casos de estresse, depressão, entre outros transtornos que têm sua principal origem no ambiente de trabalho. Segundo a própria Organização Mundial de Saúde – OMS, a questão dos transtornos mentais pode chegar a ser uma das principais causas de afastamento do trabalho, já a partir de 2020.

Em um relatório divulgado pela Organização Mundial de Saúde – OMS, que analisou como está a saúde mental no mundo, chegou-se a conclusão que, nos últimos 10 anos, o número de pessoas com depressão aumentou 18,4 %, sendo que isso representa aproximadamente 4,4% da população da terra, ou 322 milhões de pessoas, em sua maioria mulheres. Com certeza grande parte desse número tem relação direta com o trabalho.

Estima-se que nos Estados Unidos, até 80% dos acidentes de trabalho estão relacionados com o estresse, podendo representar um custo de até 300 milhões de dólares por ano.

Segundo a Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho – EU-OSHA, a questão dos distúrbios mentais, pioram a qualidade de vida dos trabalhadores e produtividade das empresas, atingindo de 3% a 4% do Produto Interno Bruto – PIB dos países envolvidos.

A nova organização do trabalho, principalmente com o avanço da tecnologia, traz grande ameaça de perda do emprego, devido a eliminação de postos de trabalho, gerando reflexos negativos diretos na saúde mental dos trabalhadores.

No Japão, o estresse motivado pelo excesso de trabalho é responsável por cerca de 10 mil mortes por ano. No Reino Unido, a estimativa é que 17% de todas as faltas ao trabalho se devem a situações provocadas pelo estresse, o que resulta em custo de 2% do total do Produto Interno Bruto (PIB), pelos mesmos motivos apontados nos Estados Unidos.

Essa questão do excesso de trabalho, de poder trabalhar de qualquer lugar, estando sempre conectado, causou grande preocupação na França, que se viu obrigada a publicar uma lei, a chamada Lei da Desconexão (le droit à la déconnexion), que introduziu em sua legislação que, empresas com mais de 50 trabalhadores devem negociar com os sindicatos uma forma de definir alguns melhores horários nos quais os empregados poderão se desconectar do trabalho, ou seja, poderá ignorar as mensagens enviadas pela empresa, normalmente fora dos horários normais de trabalho, fim de semanas e feriados, sem que estes sejam punidos por isso.

Na Alemanha, a própria Volkswagen, desde 2011 já impõe algumas restrições para o acesso ao seu correio eletrônico entre as 18h15min e 07h00min.

Tomando como exemplo o Brasil, as estatísticas mostram que o brasileiro está cada vez mais doente devido ao seu ambiente de trabalho, seguindo uma tendência mundial. Segundo um estudo da International Stress Managemente Association (ISMA), em 2018, um em cada três trabalhadores brasileiros foram afetados pelos efeitos negativos do estresse, sendo que somente o Japão possui números maiores de trabalhadores afetados, chegando a 70% da população economicamente ativa (ISMA, 2019).

Segundo a própria Previdência Social brasileira (tomando os dados a partir de 2010) são cerca de 70.000 afastamentos por ano, causados pela depressão, sendo que a aposentadoria por invalidez relacionada a transtornos mentais e comportamentais chegam a mais de 10.000 ao ano. De 2012 a 2016, este tipo de afastamento representou 9% do total de auxílios-doenças e aposentadorias por invalidez concedidas.

De acordo com o ISMA (2019), a maior causa de estresse entre os brasileiros está no medo de perder o emprego. Estima-se que 3,5% do Produto Interno Bruto – PIB brasileiro é perdido com os males do estresse relacionado ao ambiente laboral.

O que as empresas precisam entender é que, diante da nova organização do trabalho, das novas formas de trabalho, a saúde mental dos trabalhadores deve ser monitorada, sendo que as empresas devem eliminar a premissa de culpa do trabalhador pelo adoecimento. Os trabalhadores acometidos pelo adoecimento mental devem, após o tratamento, serem reinseridos no trabalho, e não mais ser exposto a situações que desencadearam a doença, sob pena de agravamento do quadro depressivo.

3.1. Síndrome de Burnout
Uma grande preocupação do mundo do trabalho, devido as novas formas de trabalho, receio de perder o emprego e a crise econômica que afeta principalmente os países do chamado “Terceiro Mundo” é a Síndrome de Bournout, termo utilizado para definir o estágio mais crítico do estresse relacionado diretamente ao trabalho.

Também chamada de Síndrome do Esgotamento Profissional, o acometimento dessa síndrome pode se tornar de difícil diagnósticos, pois além de se confundir com outros distúrbios, como o próprio estresse, o próprio trabalhador nem sempre permite que os sinais de que alguma coisa não está bem com sua saúde aflorem.

Os principais sintomas dessa síndrome são: estafa, fadiga, podendo evoluir para problemas cardiovasculares até ataques histéricos e surtos psicóticos. Um trabalhador acometido com essa síndrome, já está em uma condição de se perder a noção da gravidade dos fatos que estão acontecendo a seu redor, estando “amarrado” a uma situação que não se vê a saída.

Quando um trabalhador é diagnosticado com esta síndrome, a primeira recomendação é que o mesmo goze de férias imediatamente, partindo para terapia, sendo que essas medidas são para evitar que haja agravamento da situação, pois este trabalhador pode chegar a depressão profunda.

4. A Nanotecnologia e os Impactos na Saúde dos Trabalhadores

A nanotecnologia é o uso de qualquer material em escala manométrica, ou seja, a bilionésima parte de um metro ou, um metro dividido por um bilhão de partes.

Em outra definição, a nanotecnologia pode ser entendida como o estudo e manipulação de materiais com tamanhos de 1nm a 100nm, com finalidade científica e/ou industriais. (MARANHÃO, 2008).

Em várias indústrias, o uso de nanomateriais já é uma realidade, como na indústria de tintas usando o nanotitânio para aumentar a durabilidade da tinta, na indústria da construção civil como o uso de nanotubos de carbono no cimento para aumentar a resistência do concreto, na indústria farmacêutica, no uso de administração de novos remédios, além de protetores solares na área de cosméticos, indústria automotiva, entre outros.

Segundo a própria OIT, até 2020 cerca de 20% de todos os produtos manufaturados no mundo serão baseados no uso da nanotecnologia.

Também até 2020, a National Science Foundation estima que a nanotecnologia terá um impacto de US $ 3 trilhões na economia global e empregará 6 milhões de trabalhadores na fabricação de produtos baseados em nanomateriais, dos quais 2 milhões podem ser fabricados nos Estados Unidos (NSF, 2011).

É certo que as indústrias que já fazem uso dos nanomateriais obtêm redução de custos, porém, muitas lacunas de conhecimento ainda permanecem em aberto, não se sabendo ao certo como trabalhar com segurança frente ao uso de todos esses materiais.

Diante dessa nova tecnologia, empresas, trabalhadores e os governos enfrentam o grande desafio que é produzir produtos com nanomaterias já de posse de normas capazes de orientar como proteger os trabalhadores, frente a uma ameaça manométrica e desconhecida.

Como exemplo de preocupação com o uso dessa nova tecnologia, o Instituto Nacional de Segurança e Saúde Ocupacional (NIOSH) dos EUA, através de planejamento estratégico, pesquisa, parceria com partes interessadas e disponibilização de informações amplamente disponíveis, está trabalhando para continuar fornecendo soluções que previnam doenças e lesões relacionadas ao trabalho.

A manipulação de materiais em escala manométrica é uma nova forma de produzir, trazendo como consequências grandes impactos na saúde e segurança dos trabalhadores, pois além de inserir novas formas de trabalho, elimina outros postos de trabalho, além de trazer grandes riscos à saúde dos trabalhadores.

Outro grande problema é a dificuldade de regulamentação dessa nova tecnologia, pois esses materiais agem diferentemente de seu material de origem. Logo, há uma dificuldade de gerenciamento do risco para essas nanopartículas, sendo necessária a utilização de ferramentas como bandas de controle e o princípio da precaução para garantir a segurança do trabalhador (NOLASCO, 2016) (FUNDACENTRO, 2018).

Em termos de impacto na saúde do trabalhador, o grande problema está no contato com as partículas em escala manométricas, principalmente por via respiratória, onde os trabalhadores não possuem conhecimento adequado sobre os riscos que correm, além da proteção adequada ainda não está devidamente desenvolvida. Por exemplo, as máscaras respiratórias a serem usadas, atualmente se recomenda os filtros HEPA (High Efficiency Particulate Air), capaz de adsorver 99,9% das impurezas ar.

A via respiratória é a principal via de contaminação por este tipo de material, podendo acontecer a contaminação pela pele e até pelas vias oculares.

Não se sabe ao certo quais os riscos representados pela exposição de trabalhadores a nonomateriais, pois ainda não há um estudo epidemiológico de 10, 15 ou 20 anos, que possa evidenciar os problemas causados.

Devido a esses riscos, atualmente existe um ramo da toxicologia voltado para o estudo da nanotecnologia, chamado Nanotoxicologia.

O uso de nonomateriais já é uma realidade, sendo encontrados em centenas de produtos, como cosméticos, roupas, biomedicina, trazendo um grande benefício para a sociedade, mas também trazendo certa preocupação, pois o investimento feito no desenvolvimento dessa nova tecnologia, não é o mesmo feito para prevenir seus impactos nas novas formas de trabalho trazidos pelo uso dessa tecnologia.

É certo que o uso da nonotecnologia ainda gera grande insegurança para seu uso, pois exigirá qualificação dos trabalhadores para lidar com essa nova tecnologia, podendo trazer, ou a intensificação do trabalho ou o medo da perda do emprego. Com isso, podemos ter, como consequência, o aumento dos acidentes e doenças do trabalho, trazendo um custo para toda a sociedade, podendo inclusive sobrecarregar os sistemas de seguridade social.

As profissões que suscitam novas preocupações, em que o risco de contato com substâncias perigosas é elevado, incluem, entre outras, a gestão de resíduos e atividades de construção e manutenção, como os serviços de limpeza ou de prestação de cuidados ao domicílio.

Como impacto direto a eliminação de algumas atividades, por exemplo, pode ser citado o pneu produzido com nanotecnologia que não fura, eliminando então a função do borracheiro, que é o profissional que repara os furos desses pneus. Outro exemplo é o uso de para-brisa de carros produzidos com nanotecnologia que, além de serem anti-riscos, não necessitam do limpador de para-brisas, eliminando por completo o uso desse acessório nos carros, eliminando também o trabalho de quem produz, comercializa, concerta e faz a montagem do limpador de para-brisas.

Diante de toda essa preocupação dos impactos nas relações de trabalho e na saúde dos trabalhadores com o uso de nanomateriais, foi publicado no Brasil, através da Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho – FUNDACENTRO[1], a Norma Técnica n° 1/2018 – Os desafios da Saúde e Segurança do Trabalho (SST) para uma produção segura com o uso de nanotecnologia, no qual mostra toda sua admiração e preocupação com o uso dessa nova tecnologia:

Por possuir uma abrangência tão grande e diversa, o que há em comum em todas estas áreas é a manipulação da matéria na escala nanométrica, mas os impactos são bem diferentes em cada setor. Alguns talvez sejam até positivos, na medida em possibilitam a criação de novos materiais e até novas soluções para problemas ambientais, econômicos, de saúde, mas já estão provocando e ainda poderão ter consequências até o momento desconhecidas, nas relações sociais, de trabalho, no meio ambiente e para a saúde dos trabalhadores e do público em geral. Como exemplos podem ser citados: novas doenças, inclusive de ordem psicológica, devido à precarização do trabalho em algumas atividades ou ainda ao trabalho virtual que exige grande envolvimento intelectual; novas formas de relação de trabalho; ocupações extintas especialmente devido à robotização; surgimento de novas ocupações com necessidade de maior formação; novas formas de produção devido às impressoras 3D, robotização, etc.; novos materiais para aplicações as mais diversas (FUNDACENTRO, 2018).

A falta de limites de exposição claramente definidos, a dificuldade em controlar os processos nos ambientes ocupacionais na indústria que utiliza nanomateriais e o desconhecimento de quais são os verdadeiros efeitos à saúde do trabalhador em longo prazo continuam motivo de preocupação para os profissionais de saúde e segurança do trabalho.

Os nanomateriais podem apresentar novos desafios para entender, prever e gerenciar os riscos potenciais à saúde dos trabalhadores.

Diante de todo este cenário, as empresas devem assumir seu papel de “Ator Principal”, trazendo informações atualizadas para os trabalhadores, e promovendo a capacitação destes, antecipando ao uso desta nova tecnologia, para que estes trabalhadores possam se adaptar ou se recolocar no mundo do trabalho.

 

Alexandre Pinto da Silva

Engenheiro Eletricista e de Segurança do Trabalho, Higienista Ocupacional certificado pela ABHO0095, Pós-graduado em Gestão Previdenciária, Higiene Ocupacional, Sistemas Elétricos de Potência e Radioproteção. Mestre pela UFMG e Master em Prevención Y Proteccion de Riesgos Profesionales – Especialidade de Higiene Industrial pela Organización Iberoamericana de Seguridad Social – Universidad de Alcalá – Madrid-España. Trabalha a 29 anos na Cemig. É professor de Pós-Graduação do curso de Engenharia de Segurança do Trabalho e Higiene Ocupacional. Possui 04 livros publicados sobre saúde e segurança do trabalho, além de mais de 30 artigos técnicos na área de saúde, segurança e qualidade de vida no trabalho!


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